Era primavera. A segunda-feira se estendia lenta sobre as pessoas apressadas no centro da cidade. Era primavera, mas não havia flores. Ela era uma garota na multidão.
No meio da calçada, segurando o caderno em uma mão e o coração na outra, foi a primeira vez que percebeu sua solidão. Apenas a súbita consciência de que não havia nada além e o desespero de saber que nada importa. Lenta, ela se moveu, incapaz de qualquer atitude significativa e coerente.
Desejou que houvesse alguém para dizer que tudo ficaria bem, mas só havia aquela pequena voz em sua cabeça repetindo que “It’s just the hardest part of living”*. Sem perceber, quis fugir. Quis esconder-se em casa, mas a terrível sensação de que não havia casa, de que não havia nada a atingiu a dois passos da porta do edifício.
Com a respiração descompassada, girou a chave. O desespero crescia à medida que a realidade a atingia. Segurou o choro. Estava presa, presa com um ser humano patético, presa consigo mesma. “Alright. Give up.”**
Saiu, tentando ordenar o caos. Não haveria nada para ela. Não haveria flores. Ela piscou e quando a abriu a porta do apartamento tudo pareceu simples. “Get Down.”***
Ela tirou os sapatos. Engoliu cinco comprimidos com café e sorriu. “Alright.”****
Era primavera. As pessoas se movimentavam rápidas, apressadas na avenida longa e cheia de carros. Era primavera, mas não havia flores. Não ali. Ela se jogou da janela do sétimo andar em um dia de sol.
“She wants it all to come down this time.”*****
* “É só a parte mais difícil de se estar vivo.”
** “Tudo bem. Desista.”
*** “Abaixe-se.”
**** “Tudo bem.”
***** “Ela quer que tudo desmorone desta vez.”
Dezembro 28, 2007 at 12:13 am
…Uow.
10000 pra ti.
Dezembro 28, 2007 at 4:31 pm
Maravilhoso, pena que está com apenas um (dois agora) votos. ._.
Janeiro 5, 2008 at 8:56 pm
Essa foi a única que eu achei que teve mais a ver com a minha visão da música. E além do mais, está ótima!